Escrito e revisado pela equipe clínica da BPR. Última revisão: 30 de julho de 2026. Este artigo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento individual feito por um profissional de saúde qualificado.
Você tem aumentado seu volume de corrida, se sentindo bem — e então uma dor começa a aparecer na parte interna da canela. No começo, ela só aparece no início da corrida; não demora muito e passa a incomodar durante e depois da atividade, e até ao subir escadas. “Canelite” é o nome popular, e é uma das queixas mais frequentes entre corredores e qualquer pessoa que esteja aumentando o volume de treino. A boa notícia é que, com a abordagem certa e um pouco de paciência, o problema costuma melhorar; o importante é saber quando pode ser algo mais sério.
O que é isso?
A canelite — cujo nome correto é síndrome do estresse tibial medial (STM) — é um problema de sobrecarga da tíbia (o osso da canela) e dos tecidos que se prendem a ela na borda interna. Faz parte de um espectro de estresse ósseo causado por impacto repetitivo. É uma das lesões mais comuns entre corredores, representando cerca de 14–20% das lesões relacionadas à corrida, e também é frequente em bailarinos e recrutas militares. Ao contrário de descrições mais antigas, hoje entendemos que se trata mais de uma sobrecarga do osso e dos tecidos do que de uma simples inflamação.
Por que isso acontece?
Como na maioria das lesões por uso excessivo, o problema costuma ser fazer muito, rápido demais. Um aumento repentino no volume ou na intensidade da corrida, superfícies duras, tênis desgastados ou inadequados, e a biomecânica do pé aumentam a carga sobre a canela. Os fatores de risco conhecidos incluem um índice de massa corporal (IMC) mais alto, maior pronação do pé (queda navicular), sexo feminino e episódios anteriores da condição (Hamstra-Wright et al., 2015). Muitas vezes é uma combinação de fatores — um corredor animado e iniciante, um aumento rápido na quilometragem, e pernas que ainda não estavam condicionadas para isso.
Como é a sensação?
A característica clássica é uma dor difusa espalhada ao longo da borda interna (posteromedial) da canela — abrangendo vários centímetros, em vez de um ponto específico. No início, a dor melhora com o repouso e “esquenta” durante a atividade, retornando depois. Com a progressão, ela pode começar mais cedo durante a corrida e durar mais tempo. Uma dor que se torna bem localizada, sensível a um ponto específico ou presente em repouso e à noite é um sinal de alerta que precisa ser avaliado, pois pode indicar uma fratura por estresse.
Como é avaliada
Vamos perguntar sobre seu histórico de treino e sobre a rapidez com que sua carga mudou, e então palpar a borda interna da canela — a STM costuma causar sensibilidade em uma área difusa. Parte do trabalho é descartar condições que podem se disfarçar de canelite: fratura por estresse tibial (dor localizada e pontual), e síndrome compartimental por esforço ou compressão de nervos (tensão, dormência com o exercício). Essas condições exigem uma abordagem diferente.
O que dizem as evidências
- O gerenciamento da carga é a base do tratamento. Uma revisão sistemática constatou que o repouso relativo e a volta gradual à atividade são o núcleo consistentemente sustentado do tratamento, enquanto as evidências para a maioria dos recursos passivos adicionais (como o ultrassom) são limitadas (Winters et al., 2013).
- Vale a pena tratar os fatores de risco. IMC mais alto, maior pronação do pé e lesões anteriores aumentam o risco, então a carga de treino e a biomecânica são alvos sensatos de intervenção (Hamstra-Wright et al., 2015).
- Não existe solução rápida. A recuperação depende do carregamento gradual e do tempo, não de uma única modalidade de tratamento — por isso, paciência e um plano sensato valem mais do que correr atrás de algum aparelho milagroso.
Como é tratada
A base do tratamento é o repouso relativo e a volta gradual à corrida — não uma inatividade completa e indefinida, mas uma redução temporária da carga de impacto que está provocando o problema, mantendo o condicionamento com opções de baixo impacto, como ciclismo ou natação (Winters et al., 2013). Junto com isso, tratamos as causas de base: a progressão do seu treino, as superfícies de corrida, o calçado usado, e a força e a capacidade da panturrilha, do pé e do quadril.
Conforme os sintomas melhoram, a corrida é reintroduzida gradualmente, guiada pela sua resposta e não pelo calendário. Na prática, a STM costuma levar seis semanas ou mais para se resolver, e voltar rápido demais é o motivo mais comum de recaída.
O que você pode fazer
Reduza a carga de corrida que provoca a dor e faça treino cruzado para manter o condicionamento. Fortaleça as panturrilhas, os pés e os quadris, verifique se o seu calçado é adequado e, quando voltar a correr, faça isso de forma gradual — aumentos pequenos e constantes, em vez de saltos grandes. Use a regra das 24 horas: algum desconforto é aceitável se melhorar até o dia seguinte.
Quando buscar ajuda
Quando buscar ajuda. Procure avaliação se a dor se tornar bem localizada ou sensível a um ponto específico, estiver presente em repouso ou à noite, ou estiver piorando apesar do repouso — esses podem ser sinais de uma fratura por estresse. Dormência, ou uma sensação crescente de tensão com o esforço, também merece avaliação. Fora isso, procure um profissional se a dor na canela continuar voltando ou não melhorar com o gerenciamento de carga.
Perguntas frequentes
Posso continuar correndo com canelite?
Geralmente sim, de forma reduzida, se os sintomas forem leves e melhorarem em 24 horas. Se a dor estiver piorando ou ficando localizada, diminua o ritmo e procure avaliação para descartar uma fratura por estresse.
Como sei se é uma fratura por estresse em vez de canelite?
As fraturas por estresse costumam causar uma dor aguda e bem localizada em uma área pequena, além de dor em repouso ou à noite. A dor da STM é mais difusa. Se tiver dúvida, procure avaliação.
Quanto tempo leva para melhorar?
Geralmente seis semanas ou mais, dependendo de há quanto tempo o problema existe e de quão bem você gerencia sua carga de treino. A volta gradual é essencial.
Meias de compressão ou palmilhas ajudam?
Podem aliviar os sintomas em algumas pessoas, mas as evidências são limitadas. É melhor vê-las como recursos de conforto ao lado do gerenciamento de carga, não como uma cura.
Como evito que volte a acontecer?
Aumente seu treino gradualmente, mantenha a força da panturrilha e do quadril, evite picos repentinos de quilometragem e cuide do calçado e das superfícies em que você corre.
Como a BPR pode ajudar
Na BPR, vamos confirmar se é canelite mesmo, e não uma fratura por estresse, identificar o que fez suas canelas chegarem ao limite, e montar um plano gradual de retorno à corrida, com o trabalho de força necessário para evitar que o problema volte. Você pode agendar uma avaliação em bpr.rehab.
Referências
- Winters, M., Eskes, M., Weir, A., Moen, M.H., Backx, F.J.G. and Bakker, E.W.P. (2013) 'Treatment of medial tibial stress syndrome: a systematic review', Sports Medicine, 43(12), pp. 1315–1333. doi:10.1007/s40279-013-0087-0.
- Hamstra-Wright, K.L., Bliven, K.C.H. and Bay, C. (2015) 'Risk factors for medial tibial stress syndrome in physically active individuals such as runners and military personnel: a systematic review and meta-analysis', British Journal of Sports Medicine, 49(6), pp. 362–369. doi:10.1136/bjsports-2014-093462.

