Os rins trabalham em silêncio. Eles filtram o sangue, equilibram líquidos e sais e eliminam resíduos, e o NHS lembra que em geral não há sintomas de doença renal nas fases iniciais. A maioria das mudanças na função dos rins aparece quando se faz um exame de sangue ou de urina por outro motivo. Este guia explica os principais exames dos rins, o que significam eGFR e relação albumina/creatinina na urina, quando a cistatina C ajuda e quem costuma se beneficiar dessa avaliação.
Duas perguntas, dois tipos de exame
A diretriz do NICE, no Reino Unido, avalia a saúde dos rins com duas medidas usadas juntas:
- O quanto os rins filtram, estimado por um exame de sangue (eGFR).
- Se o filtro está deixando passar proteína, medido na urina (a relação albumina/creatinina, ou ACR).
O NICE classifica a doença renal crônica (DRC) usando as duas, porque cada uma traz uma informação que a outra não traz. A diretriz internacional KDIGO 2024 usa a mesma abordagem em dois eixos (KDIGO CKD Work Group, 2024).
Creatinina e eGFR
A creatinina é um resíduo da atividade normal dos músculos. Rins saudáveis a eliminam de forma constante, então quando a filtração diminui a creatinina no sangue tende a subir. Sozinha, a creatinina é difícil de interpretar, e por isso os laboratórios a convertem numa taxa de filtração glomerular estimada (eGFR), usando idade e sexo.
A descrição do exame de eGFR na LML traz as faixas usuais, em mL/min/1,73 m²:
- Acima de 90: função renal normal.
- 60 a 89: levemente diminuída.
- 30 a 59: moderadamente diminuída.
- 15 a 29: gravemente diminuída.
- Abaixo de 15: falência renal.
A LML acrescenta que o eGFR pode ser afetado por idade, sexo, massa muscular e alguns remédios, e deve sempre ser lido junto com o seu histórico.
O que pode mexer no número
O NICE destaca alguns pontos práticos:
- Massa muscular: o eGFR calculado pela creatinina deve ser lido com cautela em pessoas com massa muscular muito alta ou muito baixa, como fisiculturistas, pessoas amputadas ou com doenças que reduzem o músculo. Mais músculo tende a subestimar a filtração; menos músculo tende a superestimá-la.
- Carne: o NICE orienta adultos a não comer carne nas 12 horas antes de um exame de eGFR baseado em creatinina.
- Suplementos de proteína e gravidez também podem tornar o eGFR pela creatinina menos confiável.
- Um resultado baixo isolado: o NICE recomenda repetir em até 2 semanas um eGFR abaixo de 60 em quem nunca fez o exame, e considerar uma variação natural de cerca de 5% na creatinina. Só se pensa em DRC quando o eGFR fica abaixo de 60 em pelo menos duas ocasiões com pelo menos 90 dias de intervalo.
Cistatina C: um segundo marcador de filtração
A cistatina C é uma proteína produzida pelas células do corpo todo e filtrada pelos rins. A LML descreve o exame como uma forma de avaliar a função renal, com níveis elevados sugerindo filtração reduzida. Como depende muito menos do músculo, ela é útil quando a creatinina pode enganar, por exemplo em atletas, em quem treina pesado ou usa suplemento de proteína, e em idosos com menos massa muscular.
Um estudo no New England Journal of Medicine desenvolveu novas equações de eGFR e mostrou que as equações que combinam creatinina e cistatina C são mais precisas do que as que usam só a creatinina (Inker e colaboradores, 2021). A diretriz KDIGO 2024 também apoia a cistatina C quando é preciso uma estimativa mais precisa.
Relação albumina/creatinina na urina (ACR)
A albumina é uma proteína que rins saudáveis mantêm no sangue. Quando o filtro está sobrecarregado, pequenas quantidades passam para a urina. A ACR compara a albumina com a creatinina numa única amostra de urina, o que corrige o quanto a urina está concentrada.
O NICE considera clinicamente importante uma ACR confirmada de 3 mg/mmol ou mais, e recomenda confirmar resultados entre 3 e 70 mg/mmol com uma amostra da primeira urina da manhã. A LML descreve a microalbumina na urina como especialmente importante para pessoas com diabetes, em quem é usada para avaliar o envolvimento dos rins.
Grandes análises conjuntas do CKD Prognosis Consortium mostram que tanto um eGFR mais baixo quanto mais albumina na urina estão ligados a vários desfechos adversos, e por isso as duas coisas são medidas (Writing Group for the CKD Prognosis Consortium, 2023).

