Um dedão do pé que fica quente, vermelho e muito dolorido de uma noite para outra é a imagem que muita gente tem da gota. Por trás dela está uma substância em que quase ninguém pensa: o ácido úrico. Medir é simples, mas ler bem o resultado pede um pouco de contexto. Este guia explica o que é o ácido úrico, como o exame de sangue é usado na gota, por que o resultado pode enganar durante uma crise e como ele ajuda a acompanhar o tratamento.
O que é o ácido úrico
A LML descreve o ácido úrico como um resíduo formado quando o corpo quebra as purinas, substâncias presentes em certos alimentos e nas próprias células do corpo. Normalmente ele fica dissolvido no sangue e é eliminado pelos rins na urina. Quando o corpo produz demais, ou elimina de menos, os níveis sobem. Isso se chama hiperuricemia.
Segundo a LML, níveis altos podem levar a condições como gota, cálculos renais ou doença renal. O ácido úrico é regulado por transportadores no rim e no intestino, o que explica por que genética, função dos rins e alguns remédios têm papel nisso (Dalbeth e colaboradores, 2021).
Do ácido úrico à gota
Um seminário da Lancet descreve a gota como uma doença comum e tratável, causada pelo depósito de cristais de urato monossódico dentro e em volta das articulações, e aponta o urato alto no sangue como o fator de risco mais importante (Dalbeth e colaboradores, 2021). Uma revisão sobre a epidemiologia mundial a chama de artrite inflamatória mais comum (Dehlin e colaboradores, 2020).
Nem todo mundo com ácido úrico alto desenvolve gota, e a gota não se resume à crise. O seminário da Lancet ressalta que, embora apareça como crises que vão e voltam, a gota é uma doença crônica. Os cristais podem continuar nas articulações entre uma crise e outra.
O NHS lembra que a gota é mais comum em homens, sobretudo com a idade, e lista fatores que aumentam a chance de tê-la, entre eles:
- Excesso de peso ou consumo de álcool.
- Já ter passado pela menopausa.
- Usar diuréticos ou alguns remédios para pressão.
- Ter colesterol alto, pressão alta, problemas nos rins, artrose ou diabetes.
- Ter passado por cirurgia ou lesão.
Como o exame de ácido úrico é usado
Quando há suspeita de gota
O NICE recomenda medir o urato no sangue em pessoas com sinais e sintomas de gota. Um nível de 360 micromol/litro (6 mg/dl) ou mais reforça o quadro clínico. O NICE acrescenta um detalhe importante: se o resultado vier abaixo disso durante uma crise e a suspeita de gota continuar forte, o exame deve ser repetido pelo menos 2 semanas depois que a crise passar.
Por que pode parecer normal na crise
Essa orientação existe porque o urato no sangue pode cair durante uma crise aguda. Um único resultado normal no meio de uma articulação dolorida não encerra a dúvida. Testar quando tudo se acalma dá um quadro mais confiável.
Acompanhando o tratamento
Para quem faz tratamento de longo prazo para baixar o urato, o NICE recomenda buscar um urato no sangue abaixo de 360 micromol/litro, e considerar uma meta mais baixa, abaixo de 300 micromol/litro, para pessoas com tofos, artrite gotosa crônica ou crises frequentes que continuam. A diretriz do American College of Rheumatology também apoia o tratamento guiado por meta (FitzGerald e colaboradores, 2020). Aqui, o exame de ácido úrico é a forma de medir o progresso.
Ácido úrico na urina
O ácido úrico também pode ser medido na urina coletada ao longo de 24 horas. Isso mostra ao profissional quanto ácido úrico os rins estão eliminando. É um exame mais especializado, às vezes usado quando se investigam cálculos renais ou quando um especialista quer entender por que os níveis estão altos.
O que pode mexer no número
- O momento em relação à crise, como explicado acima.
- Álcool e refeições muito grandes, que o NHS lista entre os gatilhos de crise.
- Desidratação, também listada pelo NHS como gatilho.
- Remédios, sobretudo diuréticos.
- Função dos rins, já que são eles que eliminam o ácido úrico. Avaliar os rins junto costuma ser útil.

