Dois dias depois de uma maratona cheia de subidas ou de um treino pesado de pernas, a escada parece mais íngreme. Essa dor é parte conhecida do treino e reflete mudanças reais dentro do músculo. Alguns atletas e treinadores gostam de colocar números nessas mudanças, e três exames de sangue simples aparecem sempre: creatina quinase (CK), proteína C-reativa (PCR) e velocidade de hemossedimentação (VHS).
Os três estão no catálogo da BPR e são processados pelo London Medical Laboratory (LML). Este guia explica o que cada exame de recuperação muscular mede, por que o treino pesado mexe nos números e como lê-los sem tirar conclusões demais.
Creatina quinase: uma enzima que escapa do músculo em trabalho
A creatina quinase é uma enzima presente no músculo esquelético, no músculo do coração e no cérebro. A LML explica que o exame mede a CK no sangue e que níveis altos podem indicar lesão ou dano muscular, entre outras causas, incluindo algumas condições do coração. A LML também observa que a CK não é específica e que normalmente outros exames são necessários para entender um resultado alto.
No esporte, a CK é usada há muito tempo como marcador indireto de dano muscular depois do exercício. Uma revisão sobre CK e exercício descreve, porém, que o valor dela como medida de quanto dano um treino causou é discutido (Baird et al., 2012). A mesma revisão aponta que fatores que não dá para mudar, como etnia, idade e sexo, também influenciam a CK, e sugere que os limites superiores habituais podem não servir bem para pessoas muito ativas. Daí saem duas consequências práticas:
- uma CK alta no dia seguinte a um treino forte é comum e, sozinha, não é motivo de alarme;
- os seus próprios resultados anteriores, colhidos em condições parecidas, são uma comparação melhor do que os de outra pessoa.
Quando uma CK alta pede atenção rápida
Existe uma situação em que a CK importa com urgência. A rabdomiólise de esforço é a quebra de células musculares após exercício intenso em pessoas saudáveis. Uma revisão sistemática encontrou o quadro com mais frequência depois de provas de corrida, maratonas incluídas, e de musculação, e destacou dor ou cãibras musculares e urina escura após provas longas como sinais que pedem avaliação médica (Bäcker et al., 2023). Se você notar dor muscular forte, fraqueza importante, inchaço ou urina escura depois do exercício, procure atendimento médico na hora, em vez de esperar um exame de rotina.
PCR: um marcador geral de inflamação
A proteína C-reativa é produzida pelo corpo quando há inflamação. A LML descreve a PCR de alta sensibilidade como uma forma de avaliar a presença e a intensidade da inflamação, e observa que valores altos podem estar ligados a infecções, doenças autoimunes, doença cardiovascular e outras causas. Essa amplitude é importante: a PCR mostra que há inflamação, não de onde ela vem.
Um treino forte pode elevar a PCR por pouco tempo. Ao longo de meses, porém, o treino regular aponta para o outro lado: uma metanálise de 83 estudos controlados encontrou que o treinamento físico estava associado à queda da PCR, independentemente de idade ou sexo, com quedas maiores quando a gordura corporal também diminuía (Fedewa et al., 2017). Por isso uma PCR isolada colhida logo depois de uma prova é difícil de interpretar, enquanto uma série colhida em dias leves conta uma história mais clara.
VHS: um exame de inflamação mais antigo e mais lento
A velocidade de hemossedimentação mede a rapidez com que os glóbulos vermelhos se depositam num tubo vertical. A LML a chama de exame não específico que ajuda a mostrar inflamação no corpo. Uma revisão clínica sobre VHS e PCR explica que nenhum dos dois é sensível ou específico o bastante para ser usado sozinho, que ambos devem ser lidos junto com a história clínica e o exame físico, e que os dois frequentemente discordam, em parte porque sobem e baixam em velocidades diferentes (Bray et al., 2016).
Por isso a VHS raramente é usada sozinha como marcador de recuperação no esporte. Ela costuma ser pedida junto com a PCR quando um profissional de saúde quer uma visão mais ampla da inflamação, por exemplo diante de dor articular persistente ou de sintomas que não melhoram com o descanso.
Juntando os três
- CK reflete o estresse muscular e é muito sensível ao treino recente.
- PCR reflete inflamação de qualquer origem e responde em dias.
- VHS também reflete inflamação, muda mais devagar e é lida junto com a PCR.
Nenhum deles mede a "recuperação" diretamente. São informações para colocar ao lado de como você se sente, como dorme e como rende. Painéis como o Sports Fitness Profile e os painéis para atletas do catálogo da BPR já incluem CK e PCR de alta sensibilidade, então vale conferir antes de pedir exames avulsos.

